Dificilmente se ouve um cristão elogiar um romance ‘secular’ ou afirmar que gostou de um filme não pela sua mensagem, que até a achou errada, mas pelos atores, fotografia, trilha musical. Os cristãos limitam-se a ter prazer em literatura, filmes, músicas, pinturas apenas se tiver uma óbvia mensagem cristã. Entende-se que esse pensamento é por demais medieval.
Deve-se Reportar a dois momentos do cristianismo, ao medieval e ao período da Reforma Protestante. Observa-se que nas pinturas medievais o assunto era sempre religioso. Os quadros tinham uma intenção óbvia de inspirar devoção e de ensinar moral. A arte na idade média servia um propósito didático e moral e a igreja cristã era quem encomendava a maior parte das obras artísticas, e era assim que uma pessoa de talento ganhava a sua vida no mundo medieval.
Com o advento da Reforma Protestante (século 16), passa-se a conhecer um outro tipo de arte, não feita para pregar ou ensinar, nem muito menos para inspirar uma piedade fora do mundo. Surgem quadros pintados retratando cenas pastorais, pequenos retratos da vida comum nos vilarejos, homens e mulheres trabalhando e ainda naturezas mortas, com tigelas de frutas e até o retrato da dura realidade como quadros dos sem teto, dos miseráveis. Com certeza esse tipo de arte não iria converter ninguém, mas eram ilustrações da diferença entre a piedade católica romana e uma nova perspectiva da arte, pelos reformados.
Do que já foi afirmado é possível tirar dois princípios importantes: Primeiro, há aceitação do mundo como ele realmente é, criado por Deus, sob o seu cuidado, mas caído em pecado. A arte desenvolvida no período da Reforma e posterior é totalmente realista e nada sentimental (teve sem dúvida a influência da renascença). A Reforma explorou esse interesse em recuperar um senso de história e perspectiva do verdadeiro – não apenas recuperando a antiga fé, mas também descrevendo o mundo em termos reais novamente. O segundo princípio é este: não é necessário ‘santificar’ a arte exigindo que ela sirva aos interesses morais e religiosos da igreja. A criação é uma esfera legítima em si mesma. A arte não precisa de justificativas.
Embora a cosmovisão medieval produzisse uma multidão de obras artísticas surpreendentes, belas e evocativas nas habilidosas apresentações do ideal religioso, a cosmovisão da Reforma liberou a arte das amarras, permitindo que ela fosse um empreendimento puramente secular, para glória de Deus.
Rev. Itamar
(Adaptado do livro: O Cristão e a Cultura)
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